quinta-feira, 5 de maio de 2011

Alemanha, Ano Zero


Berlim, pós Segunda Guerra Mundial. Edmund tem 12 anos e tenta ajudar a família, vendendo objetos nas ruas. O pai do garoto está doente e não pode trabalhar, a irmã é acusada por todos de se prostituir para os soldados estrangeiros. Em meio ao cenário desesperador, Edmund se envolve com um grupo de jovens delinquentes, que o desamparam no momento em que ele mais precisa.

Apesar de se passar na Alemanha do pós-guerra, o filme está inserido no contexto do cinema italiano dos anos 40: o neo-realismo. Roberto Rossellini, Vittorio De Sica e Luchino Visconti são os principais nomes do movimento que inspirou cineastas de todo o mundo - inclusive os cinemanovistas brasileiros. No neo-realismo, os diretores retratavam o sofrimento da sociedade européia que morava nas cidades devastadas pela Segunda Guerra Mundial. Eles exploravam todos os lados possíveis da tragédia: relações sociais, culturais, econômicas, de poder etc. O neo-realismo se propôs a revelar as mazelas deixadas pelas grandes potências da maneira mais verdadeira possível. Para isso, os diretores abriam mão dos caros cenários, dos famosos atores, dos sofisticados recurso de câmera da época e do perfeccionismo da edição. No lugar de todos esses recursos, eles utilizavam atores não-profissionais, filmagem em locação - ou seja, todas as cenas dos filmes eram feitas nas próprias ruas das cidades -, aproveitavam a luz natural do ambiente... A intenção era transmitir tudo da maneira mais real possível.

Em "Alemanha, Ano Zero" Rossellini não deixa passar nenhuma crítica ao nazismo. Todos os personagens são uma espécie de retrato da sociedade da época: o pai doente pelo cansaço que a vida lhe causou, a irmã é vista como prostituta porque de algum jeito precisava arranjar dinheiro para ajudar a sustentar a casa e Edmund é a criança que cresceu vendo o sofrimento da família e abrindo mão da juventude para ajudar nas tarefas de casa. Mas apesar de Edmund ser o personagem principal do filme, a figura do professor Sr. Enning é a mais crítica da estória. Ele é retratado pelo diretor como um pedófilo, de crenças nazistas, que se aproveita de Edmund para ganhar algum dinheiro. O modo como ele acaricia o aluno e a maneira como se mostra tão interessado nas atividades do garoto, fica claro que o interesse do professor não é só profissional. Quando Edmund percebe que seu pai não consegue melhorar da doença, resolve pedir ajuda ao "amigo" e professor, mas não adianta nada: Enning diz ao aluno, em um discurso extremamente nazista, que só os mais fortes conseguem sobreviver no período difícil em que estão vivendo.

O peso de viver em um Estado falido, sem o amparo da família, sem relações verdadeiras de afeto, levam Edmund a pensar em atitudes jamais imaginadas por uma criança de 12 anos. É incrível ver a maneira com que os diretores italianos pensavam nas tramas de seus filmes no período do neo-realismo. Enquanto o cinema americano filmava "A Noviça Rebelde" e "Dumbo", os cineastas europeus exploravam as consequências da Segunda Guerra sem fechar os olhos para a realidade e sem medo de mostrar aos espectadores de todo mundo, a dificuldade das sociedades que viviam assoladas pelas consequências da Guerra.

"Alemanha, Ano Zero" é um filme muito importante para o cinema. Ele fez parte de um movimento que inspirou várias gerações de cineastas e que propôs que o mundo voltasse os olhos para o que realmente estava acontecendo na Europa na metade dos anos 40.


Ficha Técnica:

Alemanha, Ano Zero (Germania Anno Zero)
Itália - 1948
Direção: Roberto Rossellini
Produção: Salvo D'Angelo, Alfredo Guarini e Roberto Rossellini
Roteiro: Roberto Rossellini, Carlo Lizzani e Max Kolpé
Fotografia: Robert Juillard
Trilha Sonora: Renzo Rossellini
Elenco: Edmund Moeschke, Ernest Pittchau, Ingetraud Hinze, Erich Gühne, Fanz-Otto Krüger
Duração: 78 minutos

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